Era uma vez uns pobres accionistas da banca

É mentira que os contribuintes tenham pago os custos da banca” – Fernando Ulrich, Presidente do BPI

Quê? Confesso que não estava preparado para uma tese destas. Então, afinal, não foram enormes as transferências de euros dos contribuintes para a banca nem a dívida pública cresceu dezenas de pontos percentuais? Não, isso foram amendoins perante o fenómeno, esse sim monstruoso, de “destruição colossal de capital accionista”, pobre Zé Povinho incarnado em accionista da banca.

Segundo o relatório apresentado pelo conhecido gestor, a banca (BES/Novo Banco, BCP, CGD, BPN, BANIF e BPI) teve, de 2001 até agora, 42.400 milhões de euros de injecção de capital, muito acima dos 6.823 milhões de euros de dividendos distribuídos pelos accionistas e, até, do seu valor actual, 8.400 milhões. Portanto, concluiu, quem perdeu capital foi o accionista e não os contribuintes, sendo obviamente o accionista BPI o que menos perdeu, por certo fruto de rigorosa e acertada gestão.

Sem entrar muito em discussões económico-financeiras, não é o meu métier, nem há espaço para desenvolver, três breves apontamentos.

Quando uma empresa dá lucro, a sua razão de ser, acumula capital, distribuindo-o total ou parcialmente pelo seu proprietário, o(s) accionista(s). Do mesmo modo, quando dá prejuízo esse ónus é assumido igualmente pelo proprietário. Ora, o que se passou na banca não foi bem assim. Quando deu lucro foi para os accionistas de então. Quando a coisa azedou socializou-se o prejuízo, por razões maiores, disseram-nos. Havia perigo de risco sistémico (argumento assaz curioso para o BPP, um banco de gestão de fortunas).

E vai daí, o Estado começou a nacionalizar (o prejuízo) – o BPN, o BANIF, o BES (e parcialmente os restantes). Ficou com os bancos maus (os tais activos tóxicos), usou o dinheiro pedido à troika para injectar e emprestar à banca, assumiu garantias, a parte de leão do fundo de resolução do BES, etc., etc.. E apareceram novos accionistas, em resultado da compra por tuta-e-meia da parte boa, ficando o Estado com a responsabilidade de continuar a drenar a parte tóxica. Foi assim no BPN e no BANIF e desejam, a União Europeia e o Banco Central Europeu, o mesmo para o Novo Banco.

Por último, uma nota sobre o valor dos activos. Nesta coisa de activos financeiros vem-me sempre à memória uma frase do mundo da bola. Dizia Jorge Nuno Pinto da Costa sobre os 20 milhões de euros em que estava avaliado o passe do (activo) Pedro Mantorras – valer vale, se alguém os pagar!

Como nunca ninguém os pagou…

Francisco Gonçalves

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