Trump e/ou a mentira dos políticos

O discurso de tomada de posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos é um dos melhores exemplos da mentira em que todos os políticos, voluntária ou involuntariamente, se transformam, sobretudo quando prometem aquilo que não vão cumprir, seja porque não podem, porque não os deixam, porque não conseguem, ou simplesmente porque não querem.

Trump começa por tecer uma série de considerações acerca do controlo que o povo tem (ou deve ter) da governação de um país. Pouco depois dos agradecimentos da praxe, começam a surgir os equívocos, dos quais o novo Presidente vai ficar refém. «A cerimónia de hoje, no entanto, tem um significado muito especial, porque hoje não estamos apenas a transferir o poder de uma administração para outra, ou de um partido para outro, mas estamos a transferir o poder de Washington [para o povo], devolvendo-o ao povo». É absolutamente óbvio que isto não vai acontecer. Trump foi mandatado para exercer o poder em nome do povo que o elegeu, e a única palavra que esse mesmo povo poderá ter será expressa através do voto ou de manifestações que dificilmente terão consequências duras para os homens do poder.

Pouco depois, o novo Presidente profere a frase provavelmente mais perigosa deste discurso, quando diz «os homens e mulheres esquecidos do nosso país não serão mais esquecidos». E quase que parece dar-se conta dessa perigosidade, quando sublinha a ideia ao dizer que «os americanos querem boas escolas para os seus filhos, vizinhanças seguras para as suas famílias e bons empregos para todos». Trump chega aqui ao tipo de discurso mais típico dos políticos, mas, simultaneamente, mais mentiroso. Quando o discurso político começa a aproximar-se do pessoal, quando o que se diz parece soar à intenção benigna de chegar-se a cada um e a cada uma dos que ouvem, quando tudo parece resumir-se a um diálogo de um para um, o político (porque não pode, porque não o deixam, porque não consegue, ou simplesmente porque não quer) corre o risco de estar a dizer ao seu interlocutor, de forma afirmativa, precisamente o que não vai fazer.

E eis que, no verdadeiro clímax do seu discurso, Donald Trump diz exactamente o que não vai conseguir fazer, num belo pedaço de prosa, absolutamente mentiroso (mesmo que involuntariamente). «Mães e crianças, presas na pobreza das zonas mais desfavorecidas das nossas cidades. Fábricas enferrujadas, espalhadas como lápides pela paisagem do nosso país. Um sistema educativo cheio de dinheiro, mas que deixa os nossos jovens e os bons estudantes desprovidos de conhecimento. E o crime, os ‘gangues’ e as drogas, que roubaram tantas vidas e roubaram tanto potencial não concretizado ao nosso país. Essa carnificina americana acaba aqui e acaba agora». Isto é o que todos os políticos fazem. Comprometem-se com o que, sem saberem talvez, não conseguirão cumprir. Porque vai haver sempre alguém a quem a força desta mensagem não chega. Essa desilusão, a mesma que levou Trump ao gabinete mais importante do mundo, é gerada pelos próprios políticos. Pela mentira que encarnam. Mesmo que não queiram. Mesmo que lutem contra ela.

Ivo Brandão

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