Carta ao Pai Natal

Estimado Pai Natal:

Na altura em que te escrevo, ainda é cedo, mas quando leres já será, talvez, tarde. Como mais vale tarde que nunca, e como tenho esperança que mais gente leia o que te escrevo, pode ser que alguém resolva trazer-me a prenda no giro da Espanha, que deve terminar lá para o Dia de Reis.

Como deves saber, 2017 vai ser ano de eleições por cá, mas o meu pedido não tem só a ver com isso. Aliás, por muito que te peça paz e sossego durante a campanha eleitoral, como a coisa deve andar ali perto da Feira das Colheitas, vamos ter festa, de certeza absoluta. Também não tenho atrevimento suficiente para te pedir o dom da profecia para descobrir quem vão ser os candidatos, ou sequer os candidatos a candidatos. O dom da profecia, no que à política diz respeito, tem mais piada quando é simplesmente humano. Porque sabe melhor assim, acertar ou errar.

O que eu queria mesmo pedir-te, mesmo a sério, era que, desta vez, pudesse ser diferente. Todos sabemos que, à medida que Setembro ou Outubro se forem aproximando, a febre vai aumentar, assim como uma certa miopia (ou, pelo menos, alguma desfocagem na observação) dos que vão tentar conquistar-nos. Mas, Pai Natal, desta vez podia ser diferente.

Desta vez, e só desta vez, os políticos podiam assumir olhar para a realidade com uns óculos que fossem para além do eleitoralismo e dos quatro anos de mandato. Há, de resto, bons exemplos de como as coisas resultam quando, por querer ou sem querer, são pensadas a longo prazo. Veja-se a vitalidade da baixa do Porto, apesar de tudo o que de menos bom se possa apontar. E de como, para compreendermos como tudo começou, temos de ir até às famigeradas obras de preparação da Capital Europeia da Cultura, em 2001, do Metro do Porto, e por aí fora.

Vistas as coisas assim, é capaz de não ser pedir muito. Ah, e já agora, se puderem, depois de tomarem posse, não olhar demasiado para o umbigo ou não instalarem aí nenhum insuflador de ego, agradecemos também. Já basta o que basta.

Como vês, Pai Natal, o pedido é simples. Não precisamos da paz no mundo, ou da erradicação de todo o mal. Basta-nos um passo pequeno, pequenino, para que possamos ser nós a conseguir chegar a esses grandes objectivos, sem termos necessidade de ajudas como a tua. Pensa nisso, se puderes. Feliz Natal para ti, e que 2017 possa, pelo menos, trazer-nos esta prenda. Simples, simplesinha. Mas que, acredita, durará muito mais do que qualquer brinquedo que nos possas deixar.

Aceita os meus mais afectuosos cumprimentos, e toma cuidado. Precisamos de ti para o ano, caso não consigas trazer isto que te peço… Fica atento, por favor.

Um abraço, e até para o ano.

Ivo Brandão

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