Conto de Natal: O Senhor Antoninho

Estórias de Natal e retalhos da vida

Nesta quadra natalícia, tempo de festa, amor, união e convívio com a família, o Discurso Directo deseja-lhe um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo e oferece-lhe este Conto de Natal, para que viva a época ainda mais intensamente.

Esta é uma história dos tempos em que os santinhos vigiavam os homens dos altos dos montes, havia medo do inferno e se faziam promessas, que resolviam todos os males. Como a do meu tio, que foi num caixão, em dia de festa, com a banda a tocar atrás até ao adro. Por isso, acreditem se quiserem. Retalhos de vida não faltam. Basta juntá-los, com uns pozinhos de imaginação e de boa vontade. E nem sequer é surpresa o senhor Antoninho, com fama de «fazer das suas» e não ser «grande traste», ir dar com os costados à cadeia ao fundo da praça. Porque dizia-se – era «atravessado», «cá mas fazes cá mas pagas» e de pouco valiam os conselhos da Luciana: «António vê se ganhas juízo, não faças vida de tasca, não sejas resiliente, vai à missa, paga a côngrua ao senhor abade…»

Balelas. «Com falinhas mansas me enganas». Ao domingo saía cedo, ao cantar dos pássaros, e só voltava noite velha com umas canadas no papo. Depois pagava-as a Luciana. Bater não lhe batia, ao contrário de alguns que se gabavam de «pôr a mulher de molho» na cama. Mas um homem, enfim, como costumava dizer, «tem momentos maus», «perde a transmontana». E foi essa a sua desgraça. Mas o culpado, como não se cansava de dizer ao lume, quando já muito velho e cego desfiava a vida como um rosário, foi um tal Manel Barbaças, negociante de gado com fama de galaró, barba de orelha a orelha e grande bigodaça. Pois não é que o «grande larápio» quis «botar a mão à sua mais nova», a Rosário, quando ela regressava de varrer o moinho e trazer a fornada?

Ao vê-la chegar de olhos rasos, já a lua crescia no alto dos penhascos, apenas ouviram rosnar: «espera lá mariola, querias franga nova mas vais pagá-las». E um domingo, ao fim da missa, com grandes remorsos porque «era dia do Senhor», deixou o barbaças numa lástima. Numa encruzilhada. Levaram-no num lençol, de boca torcida, cabeça rachada e olhos esbugalhados parecia um Cristo a caminho do velho hospital.

«Porque torna porque deixa, não era caso para tanto, que diabo, pôr um homem às portas da morte, para mais que a cachopa também era um bocado alevantada, e o senhor Antoninho, em novo, também gostava de botar a mão e ainda agora tinha as suas piadas». Vozes do povo, o habitual. Mas de pouco lhe valeu. Nem mesmo a amizade do médico da vila e as arengas dum velho advogado a cheirar rapé numa saraivada. Passadas semanas, estava a «ver o sol aos quadradinhos» e a empalhar garrafões ao fundo da praça.

O tempo passava. Chegado Dezembro, começou a deitar contas à vida, a matutar: a matança do porco, as filhas, a Luciana, o Barbaças de novo na «boa vai ela», «porque tudo não passou dum mal entendido, duma rapaziada». Já gasto, cansado, com ares de sonso deu-lhe para rezar. Á noite só via cruzes e almas penadas. Para o Padre Joaquim, que o visitava, «eram os remorsos ou coisas do diabo». Chamado a pronunciar-se, o Dr. Miranda não tinha dúvidas: traumas da clausura, esquizofrenia ou cérebro cansado.

Nas lides diárias, à Luciana secaram-se as lágrimas de muito chorar: «tanto lhe quis amansar a maldade». Nunca pensou de «ver o seu home em semelhante desgraça». E fazia promessas a todos os santinhos do céu, à Sr.ª da Laje, ao S. Macário. Até mesmo fazer um presépio ao vivo à porta da igreja, se o seu António voltasse são e salvo, arrependido daquela hora má. Assim ele aceitasse fazer de S. José, ela de N.ª Senhora e gente para as outras figurinhas não havia faltar.

De novo Dezembro. De regresso, alquebrado, o senhor Antoninho ultrapassou os ombreais da porta da velha casa e, junto à lareira, andrajoso, com um saco esburacado, abraçou-se à mulher desfeito em lágrimas.

Só faltava cumprir a promessa da Luciana. Barba por fazer, dobrado, o senhor Antoninho era um S. José perfeito e, de xaile na cabeça, a Luciana só podia ser a mãe carinhosa dum pequeno pimpolho deitado numas palhas.

A promessa terminava por volta da meia-noite, quando o povo saísse da Missa do Galo. Numa noite de estrelas tocaram os sinos, alguns foguetes subiram no ar. Ouviam-se ao longe loas ao Menino que «veio para nos salvar».

Como sempre, o Padre Joaquim abandonou a igreja de cabeção e batina surrada. De fronte para o António, que desmontava o estábulo, fez-se ouvir numa voz doce e pausada: «prepara-te, António, que vais ter uma surpresa nesta noite de Natal: a tua filha mais nova vai-se casar.

Com olhos espetados na «sua mais nova» o senhor Antoninho nem queria acreditar. Para mais não conhecia o noivo nem à cadeia chegaram novidades… Foi então que, ao olhar em redor, viu sair de trás dum velho cedro o Manuel Barbaças: «perdoe-me, ti António, eu e a Rosário vamo-nos casar.» Hesitante, a ganhar coragem e a abanar a cabeça, pasmado, o senhor Antoninho só conseguiu murmurar: cala-te!… E abraçaram-se.

Com os olhos no céu, o Padre Joaquim agradecia ao Menino «as voltas que o mundo dá!…» «Assim, acabassem todas as guerras e dispensa-se tanta metralha» – acrescentou emocionado.

«De mais a mais!…» E fez-se um misterioso silêncio, porque também não era nenhum santo e, melhor que ninguém, conhecia os «pecados da carne».

Os meses de Dezembro e os Natais seguiram-se de forma apressada. Como sempre à lareira, já muito velhinho, o senhor Antoninho reclinou a cabeça e caiu lentamente no velho banco de encosto para nunca mais se levantar. Do outro lado, porque também fora seu pai, o Menino Jesus esperava-o… No céu acendiam-se as primeiras estrelas. Na velha trapeira uma candeia apagava-se.

Mas estes são retalhos de vida ou pequenas estórias de Natal…

A.B.

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